domingo, 24 de janeiro de 2010

HIPNOSE - O PODER DA SUGESTÃO








Transformada em show, a hipnose ganhou má fama e perdeu credibilidade. Mas a técnica tem indicações precisas, e quem usa, garante: funciona no tratamento de problemas de fundo psicológico. Por Cássio Leite Vieira



Parar de fumar, regredir a vidas passadas ou emagrecer sem esforço —parece que tudo é possível por meio de hipnose. Foi essa imagem mágica que desmoralizou a técnica, hoje facilmente confundida com ilusionismo ou associada a truques de levitação. O que pouca gente sabe é que a hipnose tem base científica e é regulamentada pelos conselhos federais de medicina, odontologia e psicologia, podendo ser praticada no Brasil por médicos, dentistas e psicólogos treinados.

Trata-se de um estado de consciência alterado, como o da vigília, que precede o sono. Nessa situação, o cérebro deixa temporariamente de checar as informações sensoriais que chegam a ele —como se fosse um empregado que estivesse de folga, sem ter saído de casa, isto é, à disposição. Por não estar sendo requisitado para outras tarefas, o cérebro fica livre para aceitar mais facilmente as sugestões propostas pelo hipnotizador. Mesmo em transe hipnótico, a pessoa não vai fazer nada que não queira —isso só acontece no palco, onde encenações fantasiosas muitas vezes são chamadas de hipnose.

HIPNOSE - PRÓS E CONTRAS






A técnica é levada a sério nos consultórios especializados, com amplo uso terapêutico. Quem utiliza afirma que o método tem boa performance no tratamento de fobias em geral, depressão, ansiedade, impotência sexual, ejaculação precoce, diurese noturna, gagueira, tiques nervosos, asma, alergias e doenças respiratórias de fundo emocional e quadros de náuseas e vômitos ligados à gravidez ou a tratamentos de quimioterapia. Também é possível usar a hipnose para ajudar crianças com baixo rendimento escolar, influir no desempenho de atletas e na ativação da memória.



Nem todos concordam com tudo. Respeitado no mundo da hipnose, o professor Michael Nash, editor-chefe do International Journal of Clinical and Experimental Hypnosis, nos Estados Unidos, diz que os resultados da técnica com relação a drogas, alcoolismo e tabagismo são dúbios. “Também não acredito em hipnose como forma de regredir a vidas passadas ou à vida intra-uterina: criam-se situações em que adultos passam a agir como crianças”, diz Nash. Por outro lado, segundo ele, é inegável que a hipnose é eficaz no controle da dor. Um trabalho recente feito na Bélgica mostrou que pacientes que foram hipnotizados e se submeteram a cirurgias sentiram menos dores no pós-operatório, precisaram menos de analgésicos e retomaram as atividades normais mais rapidamente. Pesquisas nessa área são antigas. Já no final dos anos 80, a revista da Academia de Ciências de Nova York publicou um importante estudo comparativo demonstrando que a hipnose muitas vezes tem uma performance superior à de medicamentos potentes como a própria morfina. De fato, a técnica tem ajudado muita gente que tem pavor da cadeira do dentista, por exemplo. “Para esses pacientes, a hipnose atenua os sintomas da fobia e diminui a sensação de dor, com alta eficácia na maior parte dos casos”, explica Pedro Polimeni Filho, cirurgião dentista que usa a hipnose em seu consultório, em São Paulo.



Segundo o psiquiatra e psicoterapeuta Auro Lescher, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), a hipnose deve ser respeitada como parte da história da própria psicanálise. “É uma técnica que põe o ser humano em contato consigo mesmo, o que, por si só, já é positivo.” A ressalva de Lescher é com relação à modernidade da hipnose. “Hoje dispomos de procedimentos eficazes que agem pontualmente e são adequados a cada situação específica. Acho que optar pela hipnose nos nossos dias é a mesma coisa que preferir usar relógio de corda: a hipnose não faz mal, também não é inócua, mas ficou antiga”, opina.



O tempo de um tratamento varia como em qualquer terapia: muitos pacientes conseguem resultados em poucas sessões; para outros, o processo é mais demorado. Cada sessão dura, em média, 50 minutos, e seu preço começa em R$ 80 e pode chegar a R$ 200. O transe hipnótico tem cinco estágios: no primeiro, chamado hipnoidal, as pálpebras ficam pesadas, a musculatura distende e a respiração entra em ritmo lento, compassado. O relaxamento vai se aprofundando: no segundo estado, o leve, as pálpebras parecem que estão coladas, os músculos amolecem, a sensação é de que o corpo está pesado, sem nenhum ponto de tensão. No terceiro nível, o médio, é possível que a pessoa já esteja tão relaxada que nem sinta a picada de uma agulha; no chamado estado profundo, o paciente pode até conversar, se for requisitado —está receptivo às impressões, mas, ao mesmo tempo, desconectado das reações normais de seu corpo. No quinto estágio, o sonambúlico, todas essas sensações atingem seu ápice: aqui, o paciente pode explorar um território desconhecido onde, sem perder a consciência nem o controle das próprias ações, sente algo que os especialistas definem como “tirar férias de si mesmo”.

NO DIVÃ DE FREUD






O pai da psicanálise descobriu a hipnose quando foi estudar com o neurologista francês Jean Martin Charcot, na França. De volta a Viena, Freud passou a usar a técnica para ajudar seus pacientes a se lembrarem de fatos perturbadores que estavam adormecidos no inconsciente, chegando à origem de seus distúrbios neuróticos. Mas, com a evolução de sua teoria da psicanálise, o médico concluiu que a pessoa tinha de estar totalmente consciente para tocar em questões de seu inconsciente, isto é, só poderia chegar à razão de seus problemas se estivesse preparada para compreendê-los e lidar com eles. A partir daí, Freud substituiu a hipnose pela livre associação, técnica em que o paciente é estimulado a falar o que lhe vier à mente, sem nenhuma censura.